O feminino que habita as mulheres! - Jornal de Colombo

O feminino que habita as mulheres!

O feminino que habita as mulheres!

Izabel Linares é Psicóloga (CRP-08/27332), especialista em psicologia clínica e psicanalista em permanente formação. Seu consultório em Colombo fica localizado na Av. Marginal José Anchieta, no 906, às margens do KM2 da Estrada da Ribeira. Contato: 41 98516-3884

As histéricas atendidas por Freud são o marco inicial da clínica psicanalítica, o pai da psicanálise relata o emblemático caso de Anna, que apresentava um vasto quadro sintomático e dito histérico como: paralisias, perda de memórias, distúrbios com alimentação, etc… Sua paciente foi descrita como recatada e tímida!

Freud entendia o surgimento de seus sintomas como uma saída diante das repressões sociais, intelectuais e sexuais impostas as mulheres da época.

Foi o gênio Vienense que conferiu um valor de dignidade aos sintomas histéricos retirando-os de classificações preconceituosas ou biologizantes sobre o feminino, para dar um lugar de expressão do sofrimento psíquico. Seu método como mecanismo discursivo deu voz a cada mulher atendida por ele.

Ele retirou o saber da ciência e dos seus mestres para devolvê-lo ao sujeito, favorecendo uma escuta que torna as mulheres agentes de seu desejo e sua emancipação.

Tais sintomas do feminino faziam e ainda fazem em nossos dias enigma ao universo masculino e patriarcal, as mulheres com seus corpos afetados por um indecifrável e inclassificável que não respondem aos tratamentos tradicionais e as medicações, encontram abrigo em suas próprias palavras numa escuta analítica.

As palavras são uma fonte de poder bendizer suas dores, suas memórias, seus afetos corporais seu sofrimento.

O enigma do feminino tantas vezes interpretado como bruxaria, histeria, possessão demoníaca, vem se pluralizando em seus singulares modos de se tornar mulher. Há muito vem se tentando dizer, escrever sobre a mulher, como tentativa de apreender algo desse (in)continente feminino… pois afinal ainda hoje nos perguntamos, o que querem as mulheres?

O que se sabe, é que do feminino há um impossível de saber, um indizível, um fora do simbólico e do sentido que confere a radical alteridade que atravessa as múltiplas versões, a pluralidade das mulheres, impedindo uma universalização ou generalizações!

A figura do feminino porta o “estranho”, o “diferente”, ora lido “como um a menos”, ora lido “como um a mais”, cobrando um alto preço pela marca de sua singularidade, alvos fáceis da incompreensão, da patologização, da medicalização, da repressão e especialmente em nossos dias, da violência.

O discurso masculino (que não necessariamente dos homens) tem extrema dificuldade em compreender algo do universo feminino, na medida que ele escapa a lógica inteiramente fálica, por isso as mulheres são ditas “loucas”, pois não há um significante para designá-la mulher.

Uma mulher se constrói num difícil e tortuoso percurso, um árduo trabalho psíquico, pois a ela falta um traço unário que a identifique como mulher, por isso esse caráter de uma certa excentricidade que toda mulher porta. Nossa maior loucura é “o tornar-se mulher”, uma construção que a duras penas precisamos empreender, num campo em que nada está dado a princípio. Seguimos trabalhando!

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