A mulher para além da mãe! - Jornal de Colombo

A mulher para além da mãe!

Hoje quero tecer algumas palavras sobre o tema da mulher, da maternidade e das implicações que isso tem para a clínica com as crianças. O tema do feminino (ser mulher, ser mãe), sempre mobiliza reflexão, estudo e um bom retorno ao que a psicanálise tentou e ainda tenta articular a respeito. Freud concebia a maternidade

Hoje quero tecer algumas palavras sobre o tema da mulher, da maternidade e das implicações que isso tem para a clínica com as crianças.

O tema do feminino (ser mulher, ser mãe), sempre mobiliza reflexão, estudo e um bom retorno ao que a psicanálise tentou e ainda tenta articular a respeito.

Freud concebia a maternidade como um importante ponto de acesso da mulher a feminilidade. Uma das saídas possíveis e até desejável para a sexualidade feminina (dentro do que a concepção teórica do momento permitia pensar), a mulher ao tornar-se mãe sentir-se-ia assegurada de sua feminilidade.

Lacan nos ajuda a avançar mais nos meandros dessa questão e com ele nos deparamos com uma distinção (a disjunção), entre a mulher e a mãe.  Para Lacan a mulher abriga também a mãe, mas a ultrapassa, visto que a mulher é faltante, desejante e busca algo para além do filho. Isso não é de modo algum sem consequências que uma mãe seja também uma mulher.

Mas afinal o que esse blá, blá, blá quer dizer? Veremos…

A mulher é o que faz um anteparo a mãe e a sua relação com a criança (filho), mas como?

Segundo Lacan a mãe é da ordem de uma “fera”, um crocodilo com a boca aberta na direção do filho, algo precisa intervir aí, para que ela não “devore” a cria (não o absorva numa célula única, em que mãe e filho ficariam fechados para o mundo ao redor), onde a mãe teria o filho como objeto de posse. Esse algo que intervém é o pai da criança, alguém ou alguma coisa que faça essa função, colocar uma lei, uma interdição entre mãe e filho, produzindo um corte, pois o “pai” barra a onipotência materna.

Desse modo ocorre um deslocamento da busca por satisfação (antes centrada na criança), para outras vias, isso libera o pequeno infans de ficar como puro objeto materno. O desejo materno atravessado pela proibição (lei), promove uma abertura. A fome materna reprimida pelo pai, recoloca essa mãe como mulher, faltante e, portanto, desejante. Assim ela começa a ir em busca de outros “objetos” outros desejos, outras significações para seu ser mulher, outras respostas para o feminino podem aparecer nessa caminhada singular.

Na clínica psicanalítica com crianças, o analista intervém para que a célula mãe- criança não se feche, para que essa criança não se torne pura e simplesmente um objeto materno, é importante verificar como a criança se inscreveu no desejo materno, que lugar ela está ocupando. É preciso verificar a quantas anda a palavra “do pai” ou “sobre o pai”, ele está operando como alteridade ou como um genitor sem valor, sem gravidade?

Todas essas complexas questões tem uma implicação direta no que se pode chamar de “sintoma da criança” e dos impasses subjetivos que elas chegam apresentando na clínica.

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