História no Jornal - Coreias: a Guerra Fria que não acabou - Jornal de Colombo

História no Jornal – Coreias: a Guerra Fria que não acabou

Coreia do Sul e Coreia do Norte: embora estejam do outro lado do planeta, os dois países chamam nossa atenção por conta de suas grandes diferenças e suas enormes semelhanças. Iniciando o texto pela conclusão, posso afirmar que norte-coreanos e sul-coreanos são, apesar da brutal fronteira que os divide, um só povo, assim como alemães

Coreia do Sul e Coreia do Norte: embora estejam do outro lado do planeta, os dois países chamam nossa atenção por conta de suas grandes diferenças e suas enormes semelhanças. Iniciando o texto pela conclusão, posso afirmar que norte-coreanos e sul-coreanos são, apesar da brutal fronteira que os divide, um só povo, assim como alemães ocidentais e alemães orientais também eram um só povo. Mas o “muro” que dividia os alemães foi derrubado em 1989, enquanto o dos coreanos ainda está em pé.

Para entendermos essa história, vamos recuar ao ano de 1392, quando a família Yi unificou todos os pequenos reinos que compunham a península da Coreia e deu início a um longo período de soberania e prosperidade, resistindo à consecutivas tentativas de dominação por parte da China e do Japão. A independência do Império Coreano neste período se expressa sobretudo em sua língua, sua escrita e sua peculiar interpretação do budismo e do confucionismo, importados da China mas adaptados aos moldes coreanos. Em 1910, a independência coreana foi brutalmente suprimida pela invasão japonesa. De 1910 a 1945, a Coreia foi uma colônia do Japão, amargando uma triste fase de sua história. Quando estive na Coreia do Sul em 2009, visitei um campo de prisioneiros mantido pelos japoneses nos anos 1930, transformado em museu para que os visitantes conheçam os horrores da ocupação japonesa. Durante a visita, perguntei a um amigo coreano se os japoneses podem ser considerados os alemães da Ásia. Ele respondeu: “Não. Os alemães pediram desculpas”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os japoneses fizeram dois inimigos poderosos: EUA e URSS, dois países que, embora rivais, aliaram-se para combater o Eixo Fascista formado por Itália, Alemanha e Japão. Paralelamente aos combates contra os nazistas na Europa, as duas potências também expulsaram os japoneses dos territórios ocupados da Ásia. Enquanto os estadunidenses expulsavam os japoneses do sul, os soviéticos o faziam no norte. Calhou dos dois se encontrarem bem no meio da península coreana, onde estabeleceram uma fronteira de ocupação. Vencido o Eixo, EUA e URSS voltaram a suas antigas hostilidades, intensificadas pelo imenso poderio que adquiriram ao longo da Guerra. Começava a Guerra Fria, conflito não declarado entre comunismo e capitalismo que durou até o início da década de 1990.

A Coreia ficou no meio do fogo cruzado. Até 1948, o norte foi ocupado pela URSS e o sul pelos EUA. Quando os “padrinhos” se retiraram, as duas partes declararam independência uma da outra, assumindo posturas ideológicas inimigas (comunismo no norte e capitalismo no sul) e reivindicando cada uma o direito de se assenhorear da outra. Essas reivindicações explodiram entre 1950 e 1953, quando as duas Coreias declaram guerra uma à outra. Os EUA ajudaram o sul e a nova representante do comunismo na Ásia, a China, ajudou o norte. Os resultados foram catastróficos para os dois países.

Hoje, em pleno 2021, a fronteira entre as duas Coreias permanece como a última relíquia da Guerra Fria. A URSS já acabou, mas a China permanece sub-repticiamente influenciando os destinos da Coreia do Norte. Os EUA, sobretudo sob a batuta de Trump, também não ajudaram muito no processo de paz. Quando China e EUA deixarem as duas Coreias dialogarem em paz, haverá alguma chance para uma possível unificação. A união entre os atletas dos dois lados da península em uma só equipe durante as olimpíadas de inverno de 2018 foi um passo, pequeno e simbólico, mas que demonstrou a vontade daquele povo em tomar, finalmente, as rédeas de sua história.

Tiago Wolfgang Dopke é professor de História do IFPR Campus Colombo e é um dos colunistas do projeto História no Jornal, desenvolvido no Campus Colombo, em parceria com o Jornal de Colombo. 

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