A sensação de buscar um sentido oculto, mesmo que toda a verdade esteja na sua frente, diante dos seus olhos, mas por ser tão bizarra, chega a ser difícil de acreditar. É esse sentimento, de uma arte surrealista, que podemos aplicar da série “Round 6” (Netflix, 2021), à realidade sul-coreana e suas contradições econômicas e sociais.

Mesmo a diferença entre a renda do mais rico e a do mais pobre na Coreia do Sul sendo relativamente baixa, o cenário competitivo e a ansiedade por status são altíssimas. Se não cumprir com as expectativas exigidas, você é visto como perdedor e é “eliminado”, excluído, como no jogo da ficção. Todas as melhores faculdades, todos os melhores empregos estão ali, reservados para os mais favorecidos. As portas se fecham e a disparidade aumenta. Ali, um personagem da série, por exemplo, dificilmente teria um bom emprego, já que era imigrante paquistanês, e era mais difícil ser qualificado. Ele não escolheu ter aquele emprego, ele não tinha escolha.

A Covid-19 afetou muito as dívidas dos sul-coreanos, principalmente dos jovens pobres. Houve fatores anteriores a isso, como a crise imobiliária coreana, legalizando os “banjiha”, ou porões subterrâneos criados nos anos 70; os “chaebols”, conglomerados industriais familiares;o aumento dos juros pela renda; além da fuga de cérebros, fenômeno cada vez mais comum devido à superqualificação diante dos empregos disponíveis. Mas tudo isso acaba não sendo percebido, mesmo estando bem diante dos nossos olhos. O filme “O poço” (Netflix, 2019) também aborda esses aspectos socioeconômicos e culturais da Coreia do Sul.

Tendemos a distorcer a disparidade social. Observamos nossos arredores e temos dificuldade de interpretar números grandes. “Round 6” afirma ser um jogo justo, o qual você mesmo escolheu para nele estar, assinou um contrato, e até voltou a jogar, mas, interpretando a sociedade coreana, as pessoas estavam em condições de ter mais alguma oportunidade além daquela?

Beatriz Bronoski é estudante do IFPR Campus Colombo e faz parte do projeto História no Jornal, elaborado pelo Jornal de Colombo em parceria com o IFPR, com supervisão do prof. Tiago Dopke.