Temperança é uma palavra que anda meio esquecida, infelizmente. Vivemos tempos de radicalismos, de extremismos, de buscas constantes por vitórias, em suma, de destemperança. Talvez uma pequena viagem pela história do pensamento possa nos ajudar a valorizar mais o equilíbrio, a harmonia e a razoabilidade e perceber os perigos do desequilíbrio.

Na China antiga, o sábio Lao Tsé afirmava que a realidade é composta por duas forças contrárias e opostas chamadas de Yin e Yang, que se manifestam através de polarizações: masculino e feminino, frio e calor, claridade e escuridão. Segundo Lao Tsé, a sabedoria consiste em equilibrar os opostos da vida, como a razão e a emoção, a guerra e a paz, o sonho e a realidade. Esse equilíbrio nos tornaria mais tranquilos, mais sábios, mais propensos a entender o outro e a encarar a existência com uma certa leveza. Mais ou menos na mesma época em que Lao Tsé desenvolvia seu pensamento na China, o filósofo grego Heráclito afirmava algo muito semelhante: a compreensão de que a existência é um constante fluir, um devir infinito causado pela tensão entre opostos. Segundo Heráclito, nunca entraremos duas vezes no mesmo rio: na segunda vez, o rio não será o mesmo rio e eu não serei o mesmo eu. Portanto, não adianta lutar contra o inevitável, contra a mudança: o sofrimento é o desejo de permanência.

É incrível como pessoas que nunca se encontraram tenham desenvolvido pensamentos tão parecidos, pois outro contemporâneo de Heráclito, um sábio indiano chamado de Sidarta Gautama (mais conhecido como “Iluminado” ou “Buda”) também falou sobre a impermanência de todas as coisas e como nosso apego àquilo que daqui a pouco não mais existirá gera sofrimento. No budismo, temperança significa evitar os desejos, compreender que passar a vida buscando satisfação atrás de satisfação só gera insatisfação. Iluminar-se é libertar-se dos desejos.

Dentre as escolas helenísticas do pensamento, temos os pensadores estóicos, que propunham uma espécie um tanto “diferente” de autoajuda. O filósofo estóico Sêneca sugeria que não fôssemos tão otimistas. Ele dizia que sempre esperar que tudo dê certo só gera sofrimento, porque as coisas podem não dar certo, e então nos frustramos. Sêneca achava que devíamos ser um pouco pessimistas, estar cientes de que as coisas podem dar errado. Caso realmente deem errado, já estaremos preparados. Caso deem certo, vamos nos sentir muito bem.

Talvez um dos segredos da felicidade seja não pensar muito em felicidade. Você pode estar vivendo um momento especialmente satisfatório, e então ser engolfado com questões do tipo “bem, eu poderia ser mais feliz agora se estivesse num cruzeiro, ou então se tivesse muito dinheiro, ou se fosse muito mais bonito do que sou”. Sua felicidade, então, vai pelos ares. A temperança pode ser um excelente antídoto contra a atual “tirania da felicidade”, como chama Pascal Bruckner a atual opressão exercida pela obrigação de se sentir feliz.

Tiago Wolfgang Dopke é professor de História do IFPR Campus Colombo e é um dos colunistas do projeto História no Jornal, desenvolvido no Campus Colombo, em parceria com o Jornal de Colombo. 

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