Em um país tradicionalmente patriarcal como o Afeganistão, simples atos do cotidiano tornam-se tarefas árduas para as mulheres, visto que muitas vezes é necessário ultrapassar a barreira do pensamento instituído há tempos que sugere a superioridade intelectual masculina.

A jornalista Asne Seierstad conviveu na casa de uma família afegã por três meses e expôs suas observações no livro “O livreiro de Cabul”. Segundo ela, “a maioria da população masculina acha que as mulheres são de fato mais burras que os homens, que o cérebro delas é menor e que não podem pensar de maneira tão clara quanto os homens”. E apesar de tais dificuldades estarem enraizadas na sociedade afegã, na década de 1960, as mulheres eram livres e ocupavam grandes espaços, representando 15% do poder legislativo do país e 50% dos funcionários públicos e universitários. Diante de tal cenário, chega a ser difícil imaginar como tal liberdade foi arrancada e a submissão foi imposta de maneira tão radical e drástica.

O Afeganistão das burcas, do casamento precoce, restrição ao trabalho e educação feminina nada tem a ver com o Afeganistão do hijab e trabalho livre; tais mudanças deram-se por conta do regime imposto pelo grupo extremista denominado Talibã. Mas afinal, o que é o Talibã? Quais seus princípios e origem?

A formação do grupo se deu pelas consequências dos conflitos entre EUA e URSS na época da Guerra Fria. Quando o conflito teve seu “fim” em 1991, o país foi consumido por crises internas e o cenário político tornou-se um caos em meio às disputas por poder entre grupos armados. Disputa a qual o Talibã ganhou e, logo após, impôs seu regime, no ano de 1996.

O Talibã caracteriza-se pela interpretação distorcida e extremista da religião islâmica e de seus textos sagrados; os membros se enxergam como “Messias do verdadeiro Islamismo”. Tal ideologia colocou em perigo os direitos das mulheres durante os cinco anos em que estiveram no comando do Afeganistão. 

A história da atual ativista Malala Yousafzai ilustra os horrores sofridos pelas mulheres afegãs nesse período: ao defender o acesso à educação para a população feminina, ela foi baleada em um atentado organizado pelo Talibã. A crueldade contra as mulheres era enorme, considerando que eram proibidas de estudar e trabalhar a partir dos 12 anos, deveriam vestir burcas que cobrissem seu corpo todo e caso descumprissem as imposições, poderiam ser açoitadas, punidas com a morte ou apedrejadas publicamente. 

Após a queda do Talibã em 2001, as mulheres voltaram a conquistar significativos espaços na sociedade. Contudo, em 15 de agosto deste ano, toda essa conquista foi ameaçada com a volta do grupo ao poder; e como aqueles que não conhecem a história estão fadados a repeti-la, manter-se vigilante e informado sobre o desenrolar de tal ato é uma das maneiras de evitar a repetição de uma história tão trágica e funesta.

Ana Luiza Cania é estudante do IFPR Campus Colombo e faz parte do projeto História no Jornal, elaborado pelo Jornal de Colombo em parceria com o IFPR, com supervisão do prof. Tiago Dopke.