Tudo começou com a indignação contra as taxações do governo imperial sobre o charque gaúcho em relação ao de países vizinhos, há cerca de 186 anos. Foi como um estouro para as angústias dos estancieiros gaúchos, acrescentados aos ideais federalistas e republicanos de caráter separatista. Somadas, essas motivações levaram à separação do Rio Grande do Sul em relação ao Brasil, em 1836. Outras rebeliões aconteceram durante o período regencial (1831-1840), o que levou o governo central a uma série de contra-ataques.

Os revoltosos gaúchos, chamados de farrapos, tinham uma tremenda desvantagem em relação às autoridades imperiais, pois suas forças eram incomparavelmente menores que a ameaça de 12 mil soldados do Duque de Caxias, convocado pelo governo central, prontos para sufocar os revoltosos e reintegrar o Rio Grande do Sul ao império do Brasil. Daí a necessidade de recrutar escravos para o exército farroupilha.

Os “farrapos negros” tinham diversas procedências, sendo cedidos por estancieiros ou sequestrados de tropas inimigas, mas todos tinham como promessa a liberdade. Eram muitos, tantos que sua libertação se tornaria uma desvantagem aos escravocratas, tanto imperiais quanto farrapos.

Avançamos para novembro de 1844. O General Canabarro, um dos líderes farroupilhas, entrega-se covardemente ao Império, além de revelar a localização dos lanceiros negros (uma das principais tropas de combate farroupilha) e fornecer armas de qualidade para o inimigo. O acampamento foi invadido e os lanceiros mortos à traição. Esse dia ficou conhecido como Massacre de Porongos.

Atualmente, temos no Rio Grande do Sul uma semana tradicional dedicada à memória da Revolução Farroupilha, mas o massacre de Porongos raramente é citado, pois poderia “manchar o orgulho gaúcho”. O racismo não é uma unidade que pode ser quantificada, e sim percebida, principalmente em nossos valores culturais e a forma como selecionamos partes da nossa história que gostamos de lembrar e ignoramos as partes que nos incomodam.

Beatriz Bronoski é estudante do IFPR Campus Colombo e faz parte do projeto História no Jornal, elaborado pelo Jornal de Colombo em parceria com o IFPR, com supervisão do prof. Tiago Dopke.