Em 1972, em uma atitude rápida e corajosa, o então prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, que nos deixou na última semana, determinou o fechamento da Rua XV de Novembro, uma das mais movimentadas do centro da capital, para implantar o primeiro calçadão do Brasil. O local passou a ser chamado de Rua das Flores. 

Já na cidade de Seul, capital da Coreia do Sul, um pequeno riacho no centro da cidade acabou sendo transformado em esgoto devido à grande urbanização local. Por volta de 1960 o chamado Gaecheon foi totalmente aterrado dando lugar a uma grande avenida chamada Cheonggyecheon e assim permaneceu durante mais de 40 anos. Em 2005, porém, após um grande trabalho de restauração e revitalização do centro da cidade, a avenida foi parcialmente desfeita, dando espaço novamente para o rio, desta vez límpido e recuperado. A avenida com sete pistas passou a contar com apenas quatro e um grande parque linear em sua extensão. 

Já em 2009, o então prefeito da cidade de Nova York, Michael Bloomberg, determinou o fechamento de uma das avenidas mais famosas e movimentadas da “capital do mundo”, a Times Square. A medida foi implementada como um experimento, mas devido ao sucesso tornou-se permanente em 2010.

Apesar das diferenças entre países e principalmente épocas, os três casos acima relatados tiveram alguns fatores em comum, como a resistência e o medo de que tais ações pudessem promover o caos na mobilidade dos respectivos centros. 

Porém, o caos não chegou. O engarrafamento esperado deu espaço para locais de compras, lazer e turismo. O vazio deu espaço para o cidadão. E os carros, a poluição, os acidentes, buzinas e engarrafamentos, passam agora longe desses locais. 

Os três exemplos são provas inquestionáveis de que quando priorizamos o automóvel, mais automóveis nós teremos. E quando priorizamos as pessoas, os espaços urbanos, a circulação, é isso que nós iremos colher. 

A Rua das Flores, exemplo mais próximo de nós, sofreu tanta crítica que a única forma que o então prefeito encontrou de realizar o projeto foi fechando a rua em uma grande ação durante o final de semana. Quando as pessoas voltassem na segunda-feira a avenida já teria sido fechada. Os comerciantes alegavam que ninguém iria andar para chegar até as lojas e que estavam fadados à falência. Isso não ocorreu. A Rua XV continua sendo um dos endereços mais famosos e movimentados da capital.

Se estes exemplos fossem em ruas pequenas, distantes, irrelevantes, não me surpreenderia tal resultado. Mas estamos falando das principais avenidas de cidades relevantes e com elevado número de habitantes. Um exemplo claro de que nossas cidades poderiam ser diferentes. Eu diria até melhores. Por que não?

Gilson Santos é Jornalista com especialização em Ciências Políticas e atual presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – Comec, do Governo do Estado do Paraná. Contato: [email protected]

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