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Com o fim da Segunda Guerra mundial, em 1945, o mundo passou por uma intensa transformação cultural, artística, filosófica e tecnológica. Muitas fábricas e tecnologias que haviam sido inventadas e aprimoradas para o uso durante a guerra tiveram que ser reinventadas e adaptadas para o consumidor comum, criando uma enorme variedade de produtos que passariam a ocupar os lares de todo o mundo. Certamente entre os produtos mais cobiçados estava o automóvel, que apesar de já existir há muitos anos, começou a ser popularizado a partir desta data. No Brasil, por exemplo, a produção em massa dos automóveis surgiu em 1956 com a implementação das fábricas nacionais durante o governo de Juscelino Kubitscheck. Foi um marco para o desenvolvimento industrial do Brasil. 

Para Juscelino, uma forma de incrementar a economia era incentivar e facilitar o acesso da população aos automóveis e, para isso, as cidades deveriam ser adaptadas para serem o grande palco deste novo e moderno modo de viver. E assim aconteceu. E as cicatrizes deste movimento existem até hoje tendo o automóvel como, talvez, o maior influenciador no planejamento das nossas cidades. Curiosamente até mesmo à frente do próprio cidadão, pois não é raro vermos uma rua asfaltada, porém, cercada de moradias precárias e até mesmo sem saneamento básico ou calçadas. 

Mesmo nos grandes centros urbanos, onde os aluguéis são altos, a disputa por espaço é mais acirrada, sobram locais para estacionamento, até mesmo públicos, de automóveis. São nestas regiões também que vemos calçadas espremidas, acuadas por enormes avenidas, onde muitas vezes mal conseguimos passar uma cadeira de rodas. Ou então, onde vemos o Transporte Coletivo, grande parte representado pelo ônibus, disputando espaço com os veículos individuais. 

Fato é que automóvel ainda é fortemente incentivado em nossa sociedade, seja com a liberação de créditos e financiamentos especiais, ou com a redução de impostos por parte do governo, ou mesmo com o planejamento das nossas cidades, priorizando o automóvel sobre todos os demais tipos de modais, até mesmo os coletivos. 

E os impactos dessa realidade são enormes. Nossas cidades estão abarrotadas de automóveis que geram poluição atmosférica, sonora, visual, engarrafamentos que fazem nossos cidadãos perderem horas e horas dos seus dias, custos com deslocamentos cada vez maiores, e, o que é pior, tornam os demais modais ineficazes. O carro é tão priorizado que prejudica o ônibus, a bicicleta, o cidadão, enfim, todos perdem. Por que em uma sociedade cada vez mais evoluída, o transporte individual continua se sobressaindo em relação ao coletivo? Não está na hora de revermos nossas prioridades? Vale a reflexão.

Gilson Santos é Jornalista com especialização em Ciências Políticas e atual presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – Comec, do Governo do Estado do Paraná. Contato: gilsonjsantos@comec.pr.gov.br