Durante muitos anos no Brasil a bicicleta foi vista apenas como uma opção de lazer. As ciclovias foram construídas e limitadas ao contorno de parques e praças, sem qualquer objetivo de mobilidade urbana. As cidades foram organizadas e pensadas para o automóvel que ainda hoje, injustamente, é o modal que domina nossas metrópoles. 

Como vimos em minha última coluna aqui no Jornal, a produção em massa do automóvel no Brasil surgiu em 1956 com grandes incentivos do Governo Federal, porém, em contrapartida, o País só ganhou a sua primeira ciclovia 20 anos depois, em 1976, na Av. Juscelino Kubitschek, em São Paulo. Em 1988, porém, a avenida foi fechada para construção do Túnel Presidente Jânio Quadros e a ciclovia nunca mais voltou a existir. 

A falta de incentivos e condições básicas para a utilização da bicicleta como meio de transporte é, portanto, histórica em nosso país, e justamente por causa disso é tão difícil para nós optarmos pela bicicleta em nossos deslocamentos diários. Mas é preciso uma mudança. E quando estudamos a história da bicicleta, vemos que mesmo Amsterdam, considerada a capital mundial da bicicleta, realizou grandes enfrentamentos até conquistar esse título. 

Assim como no Brasil, depois da Segunda Guerra Mundial, as cidades começaram a ser tomadas por automóveis gerando, entre diversos outros problemas, um enorme aumento no número de mortes no trânsito. Em 1971 Amsterdam registrou 3.300 mortes, sendo cerca de 500 destas crianças. A sociedade reagiu e teve início um grande movimento chamado “Stop Kindermoord” (Pare o assassinato de crianças!). O Governo entendeu o recado e a partir de então começou a incentivar o uso da bicicleta por meio de Leis, infraestrutura, campanhas, entre outros meios. Mas mesmo assim foram cerca de 10 anos de transformações para que Amsterdam começasse a se tornar o que ela é hoje. 

Obviamente nossas cidades são bem diferentes de Amsterdam por diversos aspectos, sejam eles topográficos, climáticos, sociais, econômicos, entre outros. Mas o que podemos aprender com essa história é que mudanças exigem ações. Se queremos cidades melhores, precisamos começar a construí-las imediatamente. E, claro, assim como em nossa vida particular, como já diz o ditado: “nós colhemos o que plantamos”. Se incentivamos o automóvel, teremos uma cidade cercada deles, como temos hoje. Mas se incentivarmos a bicicleta, o verde, o transporte coletivo, a sustentabilidade, certamente é isso que teremos. De certa forma já estamos atrasados, mas sempre é tempo para começar, e o futuro agradece.

Gilson Santos é Jornalista com especialização em Ciências Políticas e atual presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – Comec, do Governo do Estado do Paraná. Contato: gilsonjsantos@comec.pr.gov.br