Foto: TheDigitalArtist/ Pixabay

Em junho de 2020, Anne Hidalgo, prefeita de Paris, enfrentava um grande desafio. Disputar sua reeleição em meio à pandemia de Covid-19. Diversos setores já estavam sendo gravemente impactados, entre eles o Transporte Coletivo, que encarava uma queda no número de usuários de 90%, segundo dados da BBC.

Apesar das dificuldades, Hidalgo aproveitou o momento para forçar uma grande transformação em Paris, utilizando o projeto, inclusive, como proposta para sua campanha. Foi lançado o “ville de quart d’heure” ou “cidade de um quarto de hora”. 

Com as restrições de mobilidade, a queda no número de usuários no transporte e o uso mais intenso do home office, o projeto pretendia uma grande transformação urbana prevendo a “hiperproximidade” da população com equipamentos públicos, vagas de emprego, serviços, parques, comércio e variedades de entretenimento, fazendo com que qualquer cidadão não precisasse se deslocar por mais de 15 minutos (um quarto de hora) a pé ou de bicicleta para encontrar o que deseja. 

A ideia, defendida pelo professor e cientista franco-colombiano Carlos Moreno, prevê um conjunto de medidas que buscavam priorizar e incentivar a micromobilidade em um enfrentamento ao que chamamos de era do petróleo, que tem o automóvel individual como modal praticamente onipresente. 

Entre as medidas anunciadas, Hidalgo prometeu retirar mais de 60 mil vagas de estacionamento para veículos do centro da cidade, transformando estes espaços em ciclovias, áreas de lazer, áreas verdes, entre outros. Criou incentivos para que empresas adotem o home office, evitando que a população tenha que se deslocar para seus locais de trabalho. E, claro, reavaliou o planejamento para a oferta de serviços e equipamentos públicos, em especial escolas e creches, para que eles estivessem melhor distribuídos e mais próximos da população. Outra grande mudança foi a forte digitalização dos serviços públicos que poderiam ser solicitados quase que totalmente de forma online.

A ideia em si não é nova. Diversos estudiosos já debatem a necessidade de mudança no modelo de deslocamento nas cidades há bastante tempo, mas pela primeira vez vemos grandes cidades dispostas a enfrentar definitivamente o problema e de forma bastante chocante. Quase que forçando uma mudança da população. São exemplos destas cidades Ottawa, no Canadá; Detroit e Portland, nos Estados Unidos; Melbourne na Austrália, entre diversas outras. A solução realmente parece não estar em grandes sistemas de transporte de massa, caros e agressivos à paisagem das cidades e sim na simplicidade e facilidade de uma bicicleta.  A proposta foi tema central da campanha de Hidalgo que garantiu sua reeleição frente à capital francesa pelos próximos 6 anos (5 agora).

Gilson Santos é Jornalista com especialização em Ciências Políticas e atual presidente da Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba – Comec, do Governo do Estado do Paraná. Contato: gilsonjsantos@comec.pr.gov.br

1 comentário em “A cidade de 15 minutos

  1. Muito bom e muito bonito, são soluções bastante assertivas, mas vamos voltar ao Brasil, mais precisamente para a região metropolitana de Curitiba: o que o Governo do Estado do Paraná e em especial a COMEC tem feito para melhorar os deslocamentos da nossa gente? Há terminais multimodais que tenham bicicletário integrado a estrutura do terminal para diminuir os deslocamentos dos passageiros nas linhas mais próximas as residências? Há a implementação de mais vagas de emprego, faculdades e universidades boas nas cidades envolta de Curitiba para que não haja a necessidade de deslocamento das nossas cidades até Curitiba para tais fins? Há melhoria no transporte coletivo de passageiros e da malha viária para permitir o deslocamento de massa de forma mais ágil e sem tantos carros nas ruas? Muito pelo contrário: poucos ônibus, velhos, sujos, lotados, poucos horários e ainda Curitiba é o principal destino para as atividades, além de outras cidades que já despertaram para o desenvolvimento em loco. A falta de coordenação metropolitana é evidente, falta unidade da COMEC com as cidades metropolitanas para desenvolver ações de curto, médio e longo prazo!
    Redigir artigos é fácil Gilson Santos, mas vamos voltar ao Brasil, e em especial para a Grande Curitiba!

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