Goebbels, o ministro da propaganda nazista, estava certo quando dizia:
– Repita uma mentira mil vezes e ela se transformará em uma verdade. 

Você sabia que o “racismo científico” caiu por terra mas, em seu lugar assumiu outra teoria, que sobrevive até hoje, chamada “racismo cultural”? 

O que é o “racismo científico”? 

No final do século XIX, diversos intelectuais tentavam provar cientificamente a superioridade branca, com base na teoria da evolução das espécies de Darwin. Curiosamente, este cientista tinha como incentivador um homem negro. Os racistas científicos da época tentavam provar a sua tese através de cálculos e medidas cranianas. Adepto das ideias de Lombroso e Gobineau, Dom Pedro incentivou as políticas de imigração e foi um dos entusiastas de suas ideias.  Ele chegou a mandar para Santa Catarina dezenas de finlandeses com a justificativa de “melhorar a qualidade da raça”. No entanto, a comunidade científica repudiou essas teorias, porque não havia sustentação. Então, estas ideias passaram a se manifestar por outro viés, o do racismo cultural. 

O que significa a expressão “racismo cultural”? 

Após a superação do racismo científico no âmbito da biologia, a superioridade branca passa se firmar no âmbito da cultura, ou seja, a superioridade “branca” não se manifesta em termos biológicos, mas sim através da superioridade de sua religião, moral, costumes, música, arte, dança, literatura, etc. 

O racismo em tempo real.

Considerando que, pela lei brasileira, racismo e apologia ao nazismo são crimes, como e por que o racismo e a supremacia branca estão tão presentes em nosso dia a dia? 

Estudos apontaram que os gestos e discursos usados abertamente em espaços públicos por pessoas ligadas a atual gestão no governo incentivam a multiplicação de núcleos e adeptos no Brasil, principalmente na região sul e sudeste. São inúmeros os episódios públicos de uso de símbolos, bandeiras e discursos racistas empregados por pessoas ligadas ao presidente ou pelo próprio.

O Secretário da Cultura, Roberto Alvim, professor do Núcleo de Dramaturgia do SESI de Curitiba, caiu após reproduzir um discurso de Goebbels, o ministro de propaganda do Hitler, em um vídeo com cenário, simbologias, música e tudo mais que tinha direito. O atual secretário de Cultura, Mario Frias, também se envolveu em polêmicas ao fazer uma falsa analogia entre a matança de milhões de judeus durante o período nazista e os decretos de governadores que estão limitando serviços não essenciais para tentar conter o avanço da pandemia de covid-19, que já deixou mais de 300 mil mortos no Brasil.

O próprio presidente protagonizou cenas relacionadas à ideologias racistas, quando foi saudado com a tradicional saudação nazista por seus companheiros paraquedistas no Planalto. Em outro episódio polêmico, bebeu um copo de leite em uma de suas lives, gesto aparentemente banal que deveria ser percebido apenas pelos integrantes dos grupos da extrema direita,  como uma espécie de “apito de cachorro” compreendido apenas por iniciados, mas foi identificado e amplamente denunciado por diversos especialistas. Uma apoiadora fiel, a extremista Sara Geromini foi presa após acampar no planalto com um grupo cuja missão era “combater a corrupção e a esquerda”. Ela adotou o sobrenome “Winter” para homenagear uma espiã nazista integrante da União Britânica de Fascistas. 

O que dizer do atual presidente da Fundação Cultural Palmares, instituição criada em 1988 para zelar pela cultura afro-brasileira? Semana passada, o assessor do Ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi filmado repetindo reiteradamente um símbolo dos supremacistas brancos em uma reunião do Senado. O Ministro, que já tinha imenso desgaste por posturas “ideológicas” duvidosas – que tiraram a força da diplomacia brasileira em diversos espaços de decisão internacional – pediu demissão no dia de hoje (29). 

Em nota, o Museu do Holocausto lamentou a série de episódios no Brasil. “É estarrecedor que não haja uma semana que o Museu do Holocausto de Curitiba não tenha que denunciar, reprovar ou repudiar um discurso antissemita, um símbolo nazista ou ato supremacista. No Brasil, em pleno 2021. São atos que ultrapassam qualquer limite de liberdade de expressão”. O Museu do Holocausto tem a missão de construir uma memória dos crimes nazistas e alertar a humanidade dos perigos de tais ideias.

Hoje é aniversário de Curitiba. 

Como capital, o município atua como uma “caixa de ressonância”, influenciando as demais cidades do Paraná e, especialmente, da região metropolitana. Dentre as ações de aniversário anunciadas hoje temos concerto da Camerata Antiqua, entrega da Casa das Bruxa, no Bosque do Alemão e o resultado de um intercâmbio na Finlândia, em 2019. Recentemente, o prefeito afirmou coisas como “racismo institucional não existe em Curitiba”, “a identidade local é marcada pelo DNA europeu” e “Curitiba não precisa de praças e monumentos para a população negra porque, segundo ele, aqui supostamente não teria presença negra” (sic!). 

A negação da existência de população negra e do próprio racismo é uma constante que vem sendo afirmada reiteradas vezes, influenciando as demais narrativas do estado. É só observar a fala dos municípios da região metropolitana sobre as datas do mês de março. Todos exaltaram o Dia da Mulher e de conscientização sobre a Síndrome de Down, mas esqueceram do Dia Internacional de Luta pelo Enfrentamento à Discriminação Racial (21) e o Dia Internacional em Memória das Vítimas da Escravidão e do Tráfico Transatlântico (25). 

É comum ouvirmos, tanto em Curitiba quanto em Colombo e outras cidades, os gestores insistindo em negar abertamente a presença desta população ou fingindo que não existem problemas com racismo aqui. Isso quando não tentam enfrentar uma herança cultural tão complexa, arraigada e criminosa com ações simbólicas, dando uma desculpa em cada oportunidade: esquecemos, não sabíamos, não deu tempo, não tinha recurso previsto, não cabia na programação, enfim… 

Prefeito Helder, até quando?

Angela Davis ensina que não basta NÃO ser racista, precisamos ter posturas anti-racistas. Meu avô, no auge da sua sabedoria, com 94 anos, costumava dizer: quem cala consente. Até quando a Prefeitura de Colombo vai se esquivar do disposto na lei 12.288/10? Quando teremos conselho e assessoria de promoção da igualdade orientando a tomada de atitudes consistentes para tratar todos os povos de Colombo com mais  isonomia e menos eugenia? 

Nós já temos uma casa do imigrante italiano, um memorial ítalo-polonês, uma réplica da Societá Italiana de Mutuo Soccorso.  Que tal criar uma Casa Afro-indígena? Um espaço especializado, para que este tema não sobrecarregue as agendas dos profissionais responsáveis por perpetuar a nossa história exatamente como ela está? Servidores que se perpetuam em Museus, Casas de Memória, Diretorias de Cultura e todo tipo de espaço de preservação da memória e da cultura em todo o Paraná e, como Romário Martins, insistem em perpetuar a falsa imagem de um Paraná branco e europeu: herança das ideologias eugenistas que incentivaram paranistas e nazi-fascistas a apagar alguns povos, cada um ao seu modo.

*Candiero é Defensor Público Popular, Pesquisador, Escritor e membro da Comissão da Verdade sobre a Escravidão Negra da OAB/PR. Atuou como Assessor de Promoção da Igualdade em Curitiba, como Conselheiro Nacional, Estadual e Municipal de Promoção da Igualdade e fundador do Centro Cultural Humaita – Centro de Estudo e Pesquisa da Arte e Cultura Afrobrasileira.

CURITIBA AFRO

Um grito engasgado ecoou
E a Curitiba Afro se libertou

Mesmo com o apagamento
A história do negro
Hoje se revelou

Curitiba é negra
Afro Curitiba
Hoje na avenida vou louvar meus ancestrais

Busco invocar nossa história
Reavivar nossa memória
Na vida e no carnaval

De Zacarias a Rebouças
Se iniciam caminhos e novos trilhos
Que construíram nossa capital

Vou falar de Enedina
Mulher negra na engenharia
Com seu toque magistral

Também não me esqueço dos tropeiros
Os trabalhadores eram negros
E viviam na capital

Paraná, estado mais negro do sul
Seu símbolo é gralha azul
Com uma cabeça singular

Passado presente na memória
Suas marcas são histórias
Deste povo milenar

Poema de Mel e Candiero, in Afrocuritibanos: crônicas, manifestos e pensamentos azeviche. Curitiba: Editora Humaita, 2015. (esgotado)