Artista colombense emociona com o som de seu violoncelo - Jornal de Colombo

Artista colombense emociona com o som de seu violoncelo

Artista colombense emociona com o som de seu violoncelo
Semanalmente, Lucas da Paz se apresenta na recepção e nos corredores do Instituto de Neurologia e Cardiologia de Curitiba.(Foto: Guilherme Boller)

Nascido em Colombo, o artista tem uma trajetória de vida de superação, vencendo a pobreza e as condições adversas para descobrir um talento musical que encantaria e mudaria a vida de muita gente.

“Arte é impacto, é não deixar nada parado, é sempre gerar algum sentimento nas pessoas”. Com essa frase, o violoncelista Lucas da Paz define os seus objetivos no trabalho com a música.

Quando criança, Lucas fazia parte do projeto social da Casa de Apoio Irmã Scheilla, também conhecido como Creche do Tio Arlindo, na região do Atuba. Por lá, ele passava o tempo do contraturno escolar enquanto os pais estavam foram de casa.

“Inúmeras vezes eu pensei em desistir, porque eu tinha tudo pra dar errado. Meu pai era dependente químico, minha mãe cuidava de mim e das minhas três irmãs sozinha, passamos fome… Graças a Deus eu tive o desejo de ser diferente das coisas que estavam ao meu redor”, conta o músico.

Além de ser um ambiente de cuidado e acolhimento, o projeto servia também como a garantia de refeição para muitas crianças, inclusive para Lucas, que em diversas oportunidades não tinha o que comer em sua casa.

Foi no projeto que o artista teve o primeiro contato com a música, aprendendo a tocar violão com um voluntário que lhe apresentou o instrumento. Depois de quatro meses tendo aulas, Lucas já não tinha mais o que aprender com o instrutor e passou ele mesmo a tocar sozinho.

Já na adolescência, ele entrou para a Guarda Mirim do Paraná, onde aprendeu a tocar outros instrumentos, como trompete e trombone, que o introduziram na orquestra. Até hoje o artista relembra dos ensinamentos que aprendeu nessa época: “Eu lembro de uma vez que o maestro deu uma bronca na gente, dizendo que a gente tinha que ouvir de tudo, do funk ao rap, do clássico ao sertanejo e eu assumi aquilo como uma realidade, uma verdade e comecei a ouvir de tudo, sendo este o ponto em que conheci orquestras e outras coisas”, relata o músico.

Foi também numa das aulas da Guarda Mirim que Lucas teve o seu primeiro contato com o violoncelo, instrumento que viria a ser a paixão de sua vida. Uma de suas colegas levou o violoncelo para a composição de um grupo musical dos alunos e o instrumento logo chamou a atenção de Lucas, que ficou curioso em saber mais sobre ele. “Quando eu vi o instrumento, eu fiquei apaixonado pelo violoncelo e mesmo sem condições eu perguntei onde ela fazia aula”, revela o artista.

Desta maneira Lucas se conectou ao projeto do Centro Volvo Ambiental, que oferecia aulas de teatro, dança e música para crianças destituídas do lar na região de Campo Magro. Com o intenso desejo de se aproximar mais do violoncelo, ele acabou sendo acolhido também pelo projeto, tornando-se o primeiro aluno indicado que não atendia às especificações da ação.


Vivendo de música

A partir daí, o adolescente, na época com 16 anos, passou a se aprofundar no estudo da música e anos mais tarde ingressou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná, onde pôde se especializar no violoncelo com aulas e professores que são referências no instrumento.

Foi a partir deste momento da vida que ele decidiu que gostaria de se dedicar exclusivamente à música e de viver do seu trabalho artístico. “Eu abandonei o trabalho, na época minha namorada terminou comigo por eu ter pouco tempo, então comecei tudo do zero”, conta o artista.

O artista chama a atenção dos pacientes, visitantes e profissionais da saúde com as suas belas apresentações. (Foto: Guilherme Boller)

Para garantir que o seu sonho se concretizasse, Lucas migrou sua apresentação para que pudesse tocar sozinho, sem que tivesse a necessidade de ter um acompanhamento ou uma orquestra ao seu lado. Para isto, ele utiliza uma potente caixa de som que faz o acompanhamento de sua apresentação, possibilitando que ele toque mais de cinco mil músicas sozinho.

A independência fez com que ele fosse convidado para tocar nos mais variados tipos de eventos, garantindo-lhe experiências únicas. “Eu sempre brinco dizendo que toco de velório até casamento, mas é um fato. Tanto é que eu digo que zerei a minha vida em um dia, porque eu toquei de manhã num casamento, a tarde num batizado, depois num aniversário de 99 anos e mais tarde num velório. Neste dia eu cheguei em casa e pensei:‘que coisa louca, eu fiz o ciclo da vida inteiro”, brinca o músico.


Música no hospital

Há mais de cinco anos, Lucas da Paz desenvolve um projeto em parceria com Instituto de Neurologia e Cardiologia de Curitiba (INC), que o convidou para tocar na recepção do hospital. O trabalho dele foi tão bem elogiado, que ele passou a tocar também para os pacientes nos corredores do Instituto.

“Tem sido uma experiência única, porque eu vivo coisas aqui que talvez demorariam uma vida para se viver. São várias vidas dentro de uma e eu vou acumulando as vidas dessas pessoas dentro de mim em todos os sentidos”, relata o músico.

Por lá, o artista já viveu momentos inesquecíveis, compartilhando histórias de pacientes que se tornaram seus amigos e de outros que infelizmente não resistiram. Em um dos relatos, Lucas conta até que já acompanhou um paciente que acordou do coma enquanto ouvia sua música.

“É um sentimento de gratidão poder tocar no INC. Mas no fim, essa sensação de paz e de acolhimento que a música transmite mostra que a pessoa está confortável, está acalentada, e esse é o objetivo do meu trabalho”.


Retorno para a sociedade

Com uma história de vida emocionante, Lucas contou com o apoio de inúmeras pessoas que acreditaram em seu talento e que lhe deram suporte para que ele chegasse aonde está hoje. Ele lembra da professora que ajudava com o dinheiro da passagem e com doações de alimentos para sua família, e também se recorda do instrutor que o tratou como um filho, presenteando-o com um par de óculos e o seu primeiro violoncelo profissional.

Grato pelo suporte recebido, ele buscou retribuir junto às novas gerações os ensinamentos que teve no passado. Além do projeto desenvolvido junto ao INC, Lucas também deu aulas no Instituto Beija-Flor, em Colombo.

(Foto – VIMO Foto e Vídeo)

“O sentimento de gratidão também foi muito grande, porque eu estava devolvendo para a sociedade o que me deram lá atrás, que era a possibilidade de ter aula de boa qualidade. Então eu me dedicava ao máximo pelas crianças para que elas pudessem ter uma boa aula de violoncelo e uma boa aula de música, assim como eu tive no passado”, completa Lucas.

Para conhecer um pouco mais do trabalho e dos projetos desenvolvidos por esse talento colombense, você pode acompanhá-lo nas redes sociais. O perfil no Instagram é o @lucaspaz_cello e você pode encontrá-lo também no Facebook e no YouTube pesquisando pelo nome Lucas da Paz.

 

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