Entrevista com a psicóloga Carla Cristina de Macedo

Carla Cristina de Macedo é psicóloga formada pela Faculdades Integradas do Brasil – Unibrasil, desde 2011, com cursos nas áreas de Orientação Profissional, Avaliação para Cirurgia Bariátrica, Técnicas e Recursos Psicoterápicos, Curso de Capacitação no Protocolo de Reeducação Afeto Cognitiva Comportamental Alimentar.

Além disso, trabalha como psicóloga clínica individual de adolescente e adultos desde 2013, atuando com intervenções pertinentes a cada situação, tendo trabalhado com casos de: depressão, transtorno de pânico, ansiedade, stress, avaliação para cirurgia bariátrica, obesidade, orientação profissional, entre outros.

Carla ainda realiza um trabalho junto ao Hospital de Clínicas no Ambulatório Multidisciplinar do Obeso Cirúrgico (HC-UFPR) como psicóloga pesquisadora e é membro do Grupo de Estudos de Obesidade e Transtornos Alimentares no IPCAC.

Jornal de Colombo: Conte-nos um pouco sobre o “Janeiro Branco”.

Carla Cristina de Macedo: “Janeiro Branco” foi pensado como incentivo de autocuidado para ser um mês de mudanças e assim, incentivar as pessoas buscarem algo que as fazem felizes, proporcione bem-estar, trazendo novas perspectivas. Tendo como finalidade principal trazer à tona o tema da saúde mental e emocional tirando o peso do preconceito, desinformação e a ignorância. Este ano o tema é “Quem Cuida da mente, Cuida da Vida”.

Vejo a campanha “Janeiro Branco” como uma forma dos profissionais de saúde mental quebrarem preconceitos e assumirem a parte que lhes cabe na responsabilidade social. Este mês é recheado de psicoeducação e, porque não dizer, solidariedade e prevenção. Falar de autoconhecimento, prevenção, depressão, ansiedade, distúrbios alimentares, dependência química, stress, bipolaridade ou qualquer doença mental sem o peso do julgamento, preconceito ou até desinformação.

Esta Campanha é propicia para disseminar uma nova cultura da saúde mental com uma população consciente e informada. A vida humana passa por processos de construção e saber valorizar este processo pode fazer a diferença. Cuidar de si, buscar estar bem consigo mesmo e em paz com a própria vida, reconhecer as próprias dificuldades e saber de suas potencialidades: todos esses são meios do cuidar, isso é ter saúde mental, que passa pelo psicoeducação.

JC: Falar sobre saúde mental ainda é um tabu no país, qual a sua opinião sobre isso?

Carla: Não sei se o correto seria dizer tabu ou preconceito. Creio que há mais preconceito, por isso, se dá importância há campanha como “Janeiro Branco” no começo no ano, uma porta aberta no primeiro mês e que abraça todas as demais campanhas como por exemplo: “Setembro Amarelo” que é o mês de prevenção ao suicídio, “Outubro Rosa” – mês do câncer de mama, e outras campanhas.

Falando do preconceito, vejo que ele muitas vezes está relacionado à questão de que nosso corpo pode adoecer, todos nossos os órgãos do pescoço para baixo, adoecemos no estômago, bexiga, joelho e assim por diante, mas quando se trata de doença mental existe um bloqueio, uma não aceitação.

Nossa cabeça não pode adoecer, muito se dá pelo fato que os sintomas são em partes interiores e sem exames que possam diagnosticar. Uma dor conhecida somente por quem o porta. Nosso país ainda é muito racional e as questões psicológicas, emocionais fogem a isso.

JC: Qual o papel do psicólogo dentro da saúde mental?

Carla: O papel é de educar, prevenir e tratar indo muito além dos muros do consultório. Muitas vezes o trabalho do psicólogo é visto somente naquele momento que apaga o incêndio, quando à patologia já está instaurada, porém pode começar muito antes com um trabalho de psicoeducação, conscientização, autoconhecimento, dicas e prevenção.

O psicólogo está ali para reestabelecer a saúde mental do paciente ou pode promovê-la. Reconheço a individualidade de cada pessoa e seu tempo para procurar ajuda profissional, isso é parte do processo.

JC: Uma pessoa com transtorno de ansiedade, por exemplo, qual o papel da família e amigos dentro do processo de tratamento desse paciente?

Carla: Primeiro precisamos partir do princípio que “ansiedade” é inerente ao ser humano, é amoral, nem bom nem ruim. O que fazemos dela é o que pode fazer se tornar um problema, ou chegar ao ponto de ser um transtorno de ansiedade.

Podemos citar alguns momentos que a ansiedade é normal ou tem função de proteção, como, exemplo: teste Detran ou mesmo casar.

Porém, quando essa ansiedade se torna algo recorrente, é porque alcançou um nível fora do seu estado normal e, neste nível, haverá sintomas psicológicos e fisiológicos. 

A cada pessoa os sintomas vão ter sua individualidade e intensidade, com toda certeza a família e amigos são importantes aliados como rede de apoio gerando assim segurança e aumentando à confiança que está abalada e, podendo então, proporcionar um ponto de apoio para o tratamento.

JC: Qual a importância do tratamento com um psicólogo?

Carla: O tratamento com o psicólogo é um processo colaborativo, que em conjunto com o paciente vai desenvolvendo novos instrumentos e estratégias de enfretamento, definindo objetivos e plano de tratamento. É muito importante este vínculo de confiança paciente – psicólogo.

O paciente chega ao profissional da psicologia, porque algo em sua vida está lhe incomodando e por estar imerso na situação, a visão é limitada e influenciada, carregada de emoção, turvando a tomada de decisão. O psicólogo está neutro à situação e é um profissional preparado a lidar com o universo da psique humana. O grande objetivo final do tratamento é dar ao paciente o controle de assumir com autonomia as provocações desafiadoras de forma ajustada, assumindo o controle da sua vida.

JC: O que você diria para as pessoas sobre a saúde mental?

Carla: O cuidado com a saúde mental não é frescura, muito menos um bicho de sete cabeças. É um cuidado e amor para consigo mesmo e para o outro. Eu não dou aquilo que não tenho. Assim como não posso ter aquilo ao qual não tenho cuidado. Seja sua maior prioridade você merece!

JC: Ansiedade, depressão, entre outras, se tornaram “a doença do século XXI”, por que é cada vez mais frequente as pessoas apresentarem essas doenças?

Carla: Estamos em um tempo de muita cobrança, ônus dos avanços tecnológicos, exigências, atualizações constantes e nem sempre temos repertório para enfrentamento de todas essas questões e vamos enfrentando sem um preparo ou estratégias e isto gera uma sobrecarga que se torna difícil carregar e quando não conseguimos lidar podemos adoecer. Porém, esta não é a única porta para essas doenças podendo ter fatores fisiológicos, genéticos, medicamentoso, comportamental, emocional entre outros.

Foto – Arquivo pessoal

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